sexta-feira, 23 de agosto de 2013

No Campus Luiz de Queiroz ocorrem cerca de duas centenas de espécies de aves
























O avanço antrópico gerou a fragmentação dos habitats originais, acarretando alterações a todos os níveis ecológicos e aos organismos envolvidos.

Em meio a este cenário de substituição da cobertura original por diferentes tipos de usos do solo, diferentes trajetórias de ocupação dos espaços destinados ao uso humano podem gerar cenários que fogem do padrão da matriz antrópica dominante.

Neste ponto destacam-se os campi universitários localizados em matrizes urbanas e rurais. Apesar de ser um ambiente antropizado, esses locais, geralmente projetados sob um plano paisagístico, procuram manter uma harmonia entre as áreas construídas, as áreas plantadas, as paisagens naturais e seus jardins.

O Campus “Luiz de Queiroz” está localizado numa área periurbana da cidade de Piracicaba (SP). Na época de sua inauguração, em 1901, a área hoje pertencente ao campus era ocupada por áreas destinadas à produção agrícola, com diversas culturas em pequena escala, criações de animais e rodeado por chácaras.

Uma paisagem tipicamente agrícola até meados de 1920. A partir da década de 1940, a urbanização tornou-se crescente substituindo as chácaras ao sul do campus por novas áreas urbanizadas.

Enquanto a área urbana aproximava-se em sua direção, seu plano paisagístico, iniciado em 1907, constituía, ano após ano, um ambiente cada vez mais arborizado, mesclado com as áreas destinadas a plantios diversos.

Hoje, o campus, em seus 874,3ha, é um misto de agrossistema e parque urbano, apresentando uma paisagem composta por um mosaico de culturas anuais, semiperenes e perenes, pastagens, jardins planejados, áreas pavimentadas e edificações, áreas reflorestadas, além de dois remanescentes florestais de mata estacional conhecidos como Mata da Pedreira (14ha) e Mata do Pomar (9,5ha).

O rio Piracicaba, assim como dois de seus afluentes – ribeirão Piracicamirim e córrego do Monte Olimpo – passam dentro do campus, originando áreas de alagamento e açudes artificiais.




Neste cenário atual, foi realizada a listagem das espécies de aves existentes no campus “Luiz de Queiroz”. Eduardo Roberto Alexandrino, um dos autores do artigo científico “Aves do campus “Luiz de Queiroz” (Piracicaba, SP) da Universidade de São Paulo: mais de 10 anos de observações neste ambiente antrópico”, do qual foram extraídos trechos para a introdução desta matéria, revelou que o trabalho reúne levantamentos de alunos e ex-alunos da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (USP/ESALQ), todos ornitólogos, graduados nos cursos de Engenharia Agronômica, Engenharia Florestal e Ciências Biológicas, sob supervisão dos professores Kátia Maria Paschoaletto Michi de Barros Ferraz e Hilton Tadeu Zarate do Couto, ambos do Departamento de Ciências Florestais (LCF).

A listagem das espécies de aves registradas para o campus foi elaborada a partir da reunião de dados coletados por cinco ornitólogos – Eduardo Roberto Alexandrino, Alex Augusto A.

Bovo, Daniela Tomasio Apolinario da Luz, Júlio César da Costa e Gustavo Sigrist Betini, em campanhas realizadas no ano de 1996 e entre os anos de 2002 a 2011.

Durante esse período foram feitas observações de aves com o objetivo de responder diferentes perguntas e constituir bases de dados para elaboração de estudos acadêmicos.

“De 2010 a 2011, decidimos analisar tudo o que havia sido catalogado até então. Reunimos todas as cadernetinhas de campo que os cinco integrantes haviam feito e conseguimos elaborar uma metodologia de coleta de dados mantendo apenas o que consideramos estar dentro do campus. Excluímos registros duvidosos, comprovamos outros e elaboramos uma lista que reuniu 192 espécies”, explicou Alexandrino.


O levantamento:

O pioneiro nos levantamentos de campo foi Gustavo Sigrist Betini quando, em 1996, passou alguns meses observando as aves que ocorriam em variados pontos do campus como nas áreas mais urbanizadas, no parque da ESALQ e em alguns pontos dos remanescentes florestais existentes.

A partir de 2002, passados anos sem novas campanhas documentadas, estas foram retomadas de forma gradual contando com a presença em campo dos pesquisadores Julio César da Costa e Eduardo Roberto Alexandrino, os quais passaram a visitar novas áreas do campus. A partir de 2007, essas campanhas começaram a contar com os trabalhos de Daniela Tomasio Apolinario da Luz e Alex Augusto A. Bovo.

“Todos os dados que coletamos constituíram listas de espécies que foram utilizadas em disciplinas de graduação como Ecologia Animal, Ecologia de Comunidades e Restauração Florestal e, até mesmo, em nossas respectivas monografias e projetos de iniciação científica”, destacou Alexandrino.




Além de campanhas específicas para coleta de dados a serem utilizadas em estudos acadêmicos, registros de novas espécies feitos pelos autores em ocasiões díspares foram incluídos na listagem final do artigo publicado, após revisão das cadernetas de campo de cada autor. Foram considerados os registros de 2002 até outubro de 2011, quando o levantamento foi finalizado.

“Durante esses anos sempre um dos ornitólogos esteve presente no campus portando caderneta de campo pronto para registrar espécies até então não relacionadas. No total, mais de 400 horas de trabalho de campo foram realizadas, o que resultou numa lista com 192 espécies pertencentes a 51 famílias diferentes”, concluiu Alexandrino.

Entre as aves encontradas com mais frequência no Campus “Luiz de Queiroz” destacam-se o biguá (Phalacrocorax brasilianus), garça-branca-grande (Ardea alba), quero-quero (Vanellus chilensis), bem-te-vi (Pitangus sulphuratus), sabiá do campo (Mimus saturninus), sanhaço-cinzento (Tangara sayaca), tico-tico (Zonotrichia capensis), pardal (Passer domesticus), espécies consideradas comuns no ambiente urbano-rural do estado de São Paulo.

Entretanto, Alexandrino chama a atenção sobre o fato de ter sido encontrado, em alguns pontos do campus, espécies que não eram esperadas como o tuiuiú (Jabiru mycteria), o gavião belo (Busarellus nigricollis), o colhelheiro (Platalea ajaja) e outras espécies de áreas alagadas, que seriam vistas apenas no Pantanal.

Além destas, 16 espécies endêmicas da Mata Atlântica, uma do Cerrado e oito espécies consideradas sob algum grau de ameaça de extinção compõem a listagem final, onde é interessante destacar a ocorrência do azulão (Cyanoloxia brissonii), do arapaçú-de-bico-torto (Campylorhamphus falcularius), da borralhara (Mackenziaena severa) e do pica-pau-rei (Campephilus robustus).

“Foi interessante ver, depois de tanto tempo coletando dados, que a ESALQ constitui num lugar que possibilita a ocorrência de diversas espécies, desde as mais comuns até algumas ameaçadas e endêmicas. Isso se deve graças a existência de uma variedade de habitats no campus, tais como áreas alagadas, áreas urbanas, plantações e remanescentes florestais”, concluiu Alexandrino.

As tabelas e mais detalhes sobre as espécies encontradas no Campus “Luiz de Queiroz” constam no artigo científico “Aves do campus “Luiz de Queiroz” (Piracicaba, SP) da Universidade de São Paulo: mais de 10 anos de observações neste ambiente antrópico”, publicado em julho de 2013, na revista Atualidades Ornitológicas On-line.


Voos mais baixos:

Conhecido pela má aparência e o hábito de se alimentar de carniça, o urubu não é uma ave muito apreciada popularmente. Olhando para as pequenas garras afiadas, o bico enrugado e a ausência de penas na cabeça, a apresentação que se tem não é das melhores.

No entanto, um casal da espécie surpreendeu professores, alunos e funcionários do Pavilhão de Zoologia da ESALQ no último mês.

Segundo o professor Gilberto José de Moraes, do Departamento de Entomologia e Acarologia (LEA), eles sobrevoaram o Laboratório de Anatomia e Fisiologia Animal por aproximadamente um ano, até que nos últimos meses arriscaram uma aproximação maior ao pousar no jardim interno que cerca as salas do pavilhão.

“De vez em quando eles desciam e ficavam em cima do suporte do ar-condicionado. Como os urubus não possuem cordas vocais, eles emitiam apenas um crocitado discreto. Nós até tentávamos espantá-los, mas eles voltavam”, conta.

De frente para um corredor onde transitam os alunos, o espaço frequentado pelo casal não sugeria a escolha de um lugar para fazer ninho, no entanto foi exatamente o que aconteceu.

Ao final de junho foram encontrados dois ovos no chão, próximos a uma árvore ali plantada. Moraes relata que na falta de proteção, devido o ambiente ser aberto, a mãe os chocou durante o mês inteiro.

“Nesses últimos dois meses fez bastante frio, além de chover, mas ela permaneceu ali o tempo todo independente das condições climáticas”.

Dia 30 de julho, quase um mês depois, os filhotes nasceram surpreendendo a todos que não conheciam a espécie recém-nascida, com sua penugem fina e clara. Apesar do pouco tempo de vida, eles não permitem aproximação, assim como a mãe, que só se ausenta para buscar comida.

“Por volta das oito horas da manhã ela sai, mas volta rapidamente para alimentá-los. Independente da aparência não muito agradável, nós notamos o cuidado e dedicação que essa espécie apresenta em seu ciclo reprodutor”, conclui o professor.

Os filhotes, que a cada dia estão em um canto diferente do jardim, continuam explorando a área selecionada pelos pais para o nascimento.



Fotos:
Lavadeira-Mascarada e Tesourinha. Crédito: Alex Bovo.
Filhotes de urubu na ESALQ. Crédito: Gerhard Waller (ESALQ/Acom)

      

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